1. Indicações sobre a estrutura e o processo do “coronelismo”1
1 - O vocábulo “coronelismo”,
introduzido desde muito em nossa língua com acepção particular, de que resultou
ser registrado como “brasileirismo” nos léxicos aparecidos do lado de cá do Atlântico,
deve incontestavelmente a remota origem do seu sentido translato aos autênticos
ou falsos “coronéis” da extinta Guarda Nacional. Com efeito, além dos que
realmente ocupavam nela tal posto, o tratamento de “coronel” começou desde logo
a ser dado pelos sertanejos a todo e qualquer chefe político, a todo e qualquer
potentado.
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
O fenômeno de imediata observação
para quem procure conhecer a vida política do interior do Brasil é o malsinado “coronelismo”.
Não é um fenômeno simples, pois envolve um complexo de características da política
municipal, que nos esforçaremos por examinar neste trabalho.
Dadas as peculiaridades locais do “coronelismo”
e as suas variações no tempo, o presente estudo só poderia ser feito de maneira
plenamente satisfatória se baseado em minuciosas análises regionais, que não
estava ao nosso alcance realizar. Entretanto, a documentação mais acessível e
referente a regiões diversas revela tanta semelhança nos aspectos essenciais
que podemos antecipar um exame de conjunto com os elementos disponíveis.
Como indicação introdutória, devemos
notar, desde logo, que concebemos o “coronelismo” como resultado da superposição
de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e
social inadequada. Não é, pois, mera sobrevivência do poder privado, cuja hipertrofia
constituiu fenômeno típico de nossa história colonial. É antes uma forma
peculiar de manifestação do poder privado, ou seja, uma adaptação em virtude da
qual os resíduos do nosso antigo e exorbitante poder privado têm conseguido
coexistir com um regime político de extensa base representativa.
Por isso mesmo, o “coronelismo” é
sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público,
progressivamente fortalecido, e a decadente influência
social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras. Não é possível, pois,
compreender o fenômeno sem referência à nossa estrutura agrária, que fornece a
base de sustentação das manifestações de poder privado ainda tão visíveis no
interior do Brasil.
Paradoxalmente, entretanto, esses
remanescentes de privatismo são alimentados pelo poder público, e isso se
explica justamente em função do regime representativo, com sufrágio amplo, pois
o governo não pode prescindir do eleitorado rural, cuja situação de dependência
ainda é incontestável.
Desse compromisso fundamental
resultam as características secundárias do sistema “coronelista”, como sejam,
entre outras, o mandonismo, o filhotismo, o falseamento do voto, a
desorganização dos serviços públicos locais.
Com essas explicações preliminares,
passamos a examinar os traços principais da vida política dos nossos municípios
do interior.
A
PROPRIEDADE DA TERRA ENTRE OS FATORES DA LIDERANÇA POLÍTICA LOCAL
O aspecto que logo salta aos olhos é
o da liderança, com a figura do “coronel” ocupando o lugar
de maior destaque. Os chefes políticos municipais nem sempre são autênticos “coronéis”.
A maior difusão do ensino superior no Brasil espalhou por toda parte médicos e
advogados, cuja ilustração relativa, se reunida a qualidades de comando e
dedicação, os habilita à chefia. Mas esses mesmos doutores, ou são
parentes, ou afins, ou aliados políticos dos “coronéis”.
Outras vezes, o chefe municipal,
depois de haver construído, herdado ou consolidado a liderança, já se tornou um
absenteísta. Só volta ao feudo político de tempos em tempos, para descansar,
visitar pessoas da família ou, mais frequentemente, para fins partidários. A
fortuna política já o terá levado para uma deputação estadual ou federal, uma
pasta de secretário, uma posição administrativa de relevo, ou mesmo um emprego
rendoso na capital do Estado ou da República. O êxito nos negócios ou na profissão
também pode contribuir para afastá-lo, embora conservando a chefia
política do município: os lugares tenentes, que ficam
no interior, fazem-se então verdadeiros chefes locais, tributários do chefe
maior que se ausentou. O absenteísmo é, aliás, uma situação cheia de riscos:
quando o chefe ausente se indispõe com o governo, não são raras as defecções
dos seus subordinados. Outras vezes, é ele próprio quem aconselha essa atitude,
operando, pessoalmente, uma retirada tática.
Qualquer que seja, entretanto, o
chefe municipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o “coronel”, que
comanda discricionariamente um lote considerável de votos
de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural
coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de
dono de terras. Dentro da esfera própria
de influência, o “coronel” como que resume em sua pessoa, sem substituí-las,
importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição
sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes,
verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em
suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de
que frequentemente se desincumbe com a sua pura ascendência social, mas que
eventualmente pode tornar efetivas
com o auxílio de empregados, agregados ou capangas.
Essa ascendência resulta muito
naturalmente da sua qualidade de proprietário rural. A massa humana que tira a
subsistência das suas terras vive no mais lamentável estado de pobreza, ignorância
e abandono. Diante dela, o “coronel” é rico. Há, é certo, muitos fazendeiros
abastados e prósperos, mas o
comum, nos dias de hoje, é o
fazendeiro apenas “remediado”: gente que tem propriedades e negócios, mas não
possui disponibilidades financeiras; que tem o gado sob penhor
ou a terra hipotecada; que regateia taxas e impostos, pleiteando condescendência
fiscal; que corteja os bancos e demais credores,
para poder prosseguir em suas
atividades lucrativas. Quem já andou pelo interior há de ter observado a falta
de conforto em que vive a maioria dos nossos fazendeiros. Como costuma “passar
bem de boca” — bebendo leite e comendo ovos, galinha, carne de porco e
sobremesa — e tem na sede da fazenda um conforto primário, mas inacessível ao
trabalhador do eito — às vezes, água encanada, instalações sanitárias e até luz
elétrica e rádio —, o roceiro vê sempre no “coronel” um homem rico, ainda que não
o seja; rico, em comparação com sua pobreza sem remédio. Além do mais, no meio rural, é o proprietário de
terra ou de gado quem tem meios de obter financiamentos. Para isso muito
concorre seu prestígio político, pelas notórias ligações dos nossos bancos. É,
pois, para o próprio “coronel” que o roceiro apela nos momentos de apertura,
comprando ado em seu armazém para pagar com a
colheita, ou pedindo dinheiro, nas mesmas condições, para outras necessidades.
Se ainda não temos numerosas classes
médias nas cidades do interior, muito menos no campo, onde os proprietários ou
posseiros de ínfimas glebas, os “colonos” ou parceiros e mesmo pequenos
sitiantes estão pouco acima do trabalhador assalariado, pois eles próprios
frequentemente trabalham sob salário.
Ali o binômio ainda é geralmente representado
pelo senhor da terra e seus dependentes. Completamente analfabeto, ou quase,
sem assistência médica, não lendo jornais nem revistas, nas quais se limita a
ver as figuras, o trabalhador rural, a não ser em casos esporádicos,
tem o patrão na conta de benfeitor. E é dele, na verdade, que recebe os únicos
favores que sua obscura existência conhece. Em sua situação, seria ilusório
pretender que esse novo pária tivesse consciência do seu direito a uma vida
melhor e lutasse por ele com independência cívica. O lógico é o que
presenciamos: no plano político, ele luta com o “coronel” e pelo “coronel”. Aí
estão os votos de cabresto, que resultam, em grande parte, da
nossa organização econômica rural.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada
e Voto – O município e o regime representativo no Brasil. 7ª edição. Companhia
das Letras.; páginas 23 a 25.
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